Quando a palavra bruxaria aparece na internet, é comum encontrarmos uma mistura de conceitos: entidades, divindades, espíritos, ancestrais, orixás, elementais, seres mágicos e diferentes formas de espiritualidade são colocados dentro da mesma categoria.
Mas essas palavras não são sinônimas.
Bruxaria não significa automaticamente culto a entidades.
Existem caminhos de bruxaria religiosos e não religiosos, práticas mágicas que não envolvem culto e tradições que trabalham com divindades sem que isso signifique trabalhar com “entidades”.
Para compreender a diferença, precisamos primeiro separar os conceitos.
O que é culto na bruxaria?
Culto é uma relação religiosa ou devocional estabelecida com uma divindade ou figura sagrada.
Algumas tradições de bruxaria possuem uma dimensão religiosa e incluem devoção ou culto a divindades.
A Wicca é um exemplo de religião moderna de bruxaria que possui uma cosmologia religiosa e trabalha tradicionalmente com a polaridade divina representada pelo Deus e pela Deusa, embora suas diferentes tradições e praticantes possam desenvolver essa relação de maneiras distintas.
Isso, porém, não significa que toda pessoa que pratica bruxaria cultue divindades.
Muito menos que toda bruxa cultue entidades.
Bruxaria pode ser religiosa ou não religiosa
Essa é uma das primeiras distinções necessárias.
Existem formas de bruxaria inseridas em estruturas religiosas, como a Wicca.
Também existem caminhos e práticas de bruxaria que podem ser desenvolvidos fora de uma religião, templo Wiccano, como a Bruxaria Solitária que é uma das camadas desenvolvidas por iniciados wiccanos referente a um contexto histórico, por volta dos anos 80, a wicca ficou tão popular nos EUA que haviam pessoas demais querendo praticar a bruxaria e covens de menos para integrar esses participantes, então Raymond Buckland lança o livro Guia para Bruxos Solitários.
Já a Bruxaria Natural, uma corrente de bruxaria influênciada pela Wicca, entretanto, é um caminho não estruturado e mais livre, mais parecido como uma filosofia de vida.
Além disso, existe a possibilidade de uma pessoa estudar tipos de magia e praticar de maneira pessoal, muito comum entre os neo-pagãos, sem necessariamente assumir uma identidade religiosa.
Portanto:
bruxaria ≠ religião obrigatoriamente.
E:
bruxaria ≠ culto à divindades obrigatório.
Uma pessoa pode seguir o caminho da bruxaria sem cultuar nenhuma divindade.
Cultuar uma divindade é diferente de cultuar uma entidade
Essa distinção é fundamental.
Divindade é um ser ou princípio considerado divino dentro de determinada religião ou cosmologia.
Hécate, por exemplo, é uma deusa da religião grega antiga, posteriormente reinterpretada e incorporada a diferentes tradições de bruxaria dentro da Wicca.
Uma pessoa pode estabelecer uma relação devocional com Hécate dentro de sua prática religiosa pessoal como na Bruxaria Solitária (O livro wiccano de bruxaria solitária de Raymond Buckland) ou dentro de uma tradição de bruxaria.
Isso não transforma Hécate em uma “entidade” no sentido utilizado por determinadas religiões mediúnicas e afro-brasileiras.
O vocabulário importa porque as categorias religiosas e caminhos espirituais não são intercambiáveis.
E as entidades?
A palavra entidade possui significados diferentes conforme o contexto.
No Brasil, ela aparece com frequência no vocabulário de religiões e práticas mediúnicas, incluindo tradições afro-brasileiras.
Na Umbanda, por exemplo, existem entidades espirituais que fazem parte de sua própria cosmologia e ritualística.
Essas entidades pertencem ao contexto religioso da Umbanda.
Isso não significa que sejam automaticamente figuras da bruxaria.
Umbanda e bruxaria são caminhos diferentes
Essa distinção precisa ser muito clara.
A Umbanda é uma religião brasileira, com sua própria história, formação, cosmologia, ritualística e categorias espirituais.
A Wicca é uma religião moderna de bruxaria, desenvolvida em outro contexto histórico e cultural. Incluindo também a Bruxaria Solitária.
A Bruxaria Natural é um caminho espiritual que pode ser praticado sem uma estrutura religiosa, pois apesar de ter influência wiccana é considerado uma filosofia de vida.
São caminhos diferentes.
Por isso, não faz sentido pegar uma prática própria da Umbanda e simplesmente classificá-la como “bruxaria” porque determinada pessoa também se identifica como bruxa.
Uma pessoa pode ser:
“Umbandista e também praticante de Bruxaria Natural.”
Isso descreve a pessoa.
Não significa que:
“Umbanda é uma forma de Bruxaria Natural.”
São afirmações completamente diferentes.
E se uma pessoa de uma religião praticar magia?
Ela pode.
Uma pessoa pode ter uma religião e também desenvolver práticas mágicas pessoais como Magia Natural, Magia Planetária, Magia Cerimonial, Magia Popular.
Mas é importante distinguir:
o que pertence à religião
daquilo que
pertence à prática pessoal do indivíduo.
Por exemplo, alguém pode frequentar a Umbanda e, em sua vida pessoal, estudar ervas ou magia natural.
Isso não transforma essas práticas em elementos tradicionais da Umbanda.
Da mesma forma, alguém pode ser wiccana e ter estudos pessoais de outras tradições.
A experiência individual é um espaço diferente da identidade histórica de uma religião.
“Mas eu cultuo uma entidade na minha prática de bruxaria”
Novamente, precisamos perguntar o que a pessoa chama de entidade e de onde vem essa prática.
Se “entidade” está sendo utilizado apenas como uma palavra genérica para qualquer ser espiritual, pode existir uma questão de terminologia.
Mas se estamos falando de uma categoria específica de uma tradição religiosa — especialmente uma entidade pertencente à cosmologia de uma religião afro-brasileira — não devemos simplesmente retirar essa figura de seu contexto e chamá-la de elemento tradicional da bruxaria.
Uma pessoa pode construir uma prática pessoal que reúna diferentes influências.
Isso é possível.
Mas então estamos falando de uma prática pessoal, não necessariamente de uma característica histórica da bruxaria.
E a Bruxaria Natural?
A Bruxaria Natural, sendo um caminho espiritual, filosofia de vida ou corrente de bruxaria, possui uma proposta particularmente importante para essa distinção.
Seu ponto de partida está na natureza e na prática da Magia Natural.
Ela pode trabalhar com:
- elementos da natureza;
- ervas;
- árvores;
- pedras;
- água;
- fogo;
- ar;
- terra;
- Lua;
- Sol;
- estações;
- ciclos naturais;
- correspondências;
- encantamentos.
Nesse caminho, não existe uma exigência de culto à divindades.
A pessoa pode desenvolver uma relação espiritual ou mágica com a própria natureza e seus elementos sem precisar estabelecer culto a uma divindade específica.
Isso é diferente de uma tradição religiosa em que o culto às divindades ocupa uma posição central.
Mas algumas bruxas cultuam divindades?
Sim.
E isso também faz parte da diversidade da bruxaria moderna, influenciada pela Wicca (1940).
Uma pessoa pode cultuar Hécate.
Outra pode cultuar Ísis.
Outra pode trabalhar com divindades celtas.
Outra pode estabelecer uma prática devocional relacionada a divindades nórdicas.
Outra pode seguir uma tradição religiosa que trabalha com o Deus e a Deusa em coerência com uma Deusa ou Deus do panteão específico, como também pode focar apenas numa Deusa.
E outra pode não cultuar nenhuma divindade.
Não existe uma lista universal de divindades que toda bruxa precisa cultuar. Mas dentro da Wicca existem panteões comuns como celta, nórdico, romano, grego e egípcio (essas divindades foram incorporadas na wicca por um critério histórico dado ao contexto em que ela foi criada em um períodp onde o ocultismo morderno estava em alta e o trabalho com essas divindades em tradições mágicas na Europa estava presente)
Por isso, simplesmente descobrir que alguém se identifica como bruxa não permite concluir:
“Então ela cultua Hécate.”
É necessário conhecer o caminho específico daquela pessoa.
A prática pessoal é um ambiente diferente
Esse talvez seja o ponto mais importante deste artigo.
Existe uma diferença entre:
“Eu pratico isso.”
e:
“Essa tradição pratica isso.”
A primeira frase descreve uma pessoa.
A segunda faz uma afirmação histórica e religiosa.
Uma pessoa pode construir um altar pessoal com elementos de diferentes sistemas.
Pode estudar divindades de diferentes culturas.
Pode desenvolver uma prática espiritual própria.
Pode combinar estudos.
Mas isso não significa que essa combinação exista tradicionalmente dentro da Wicca, da Bruxaria Natural, da Umbanda ou de qualquer outra religião.
A prática pessoal não deve ser apresentada como se fosse a tradição de origem.
Então uma bruxa precisa cultuar alguma coisa?
Não.
Uma pessoa pode praticar Bruxaria Natural (livro Técnicas de Magia Natural de Scott Cuningham) sem cultuar divindades.
Pode trabalhar com a natureza, os elementos, ervas, ciclos e magia.
Também pode seguir uma forma religiosa de bruxaria e estabelecer uma relação devocional com divindades.
Pode ser uma praticante solitária.
Pode pertencer a uma comunidade religiosa.
Pode ainda estar estudando e não ter definido seu caminho.
Não existe uma única configuração obrigatória.
A conexão com divindades pode fazer parte da jornada
Para algumas pessoas, o contato com uma divindade surge naturalmente durante o estudo.
Primeiro vem a curiosidade sobre magia.
Depois a pessoa conhece mitologia.
Estuda religiões antigas.
Conhece diferentes panteões.
Pesquisa divindades específicas.
E, eventualmente, pode estabelecer uma relação devocional com uma delas.
Essa pode ser uma etapa importante da jornada espiritual de algumas pessoas.
Mas não é uma consequência automática de praticar magia.
Você não precisa escolher uma divindade só porque começou a praticar bruxaria.
E não precisa cultuar uma divindade para que sua prática seja válida.
E as divindades de diferentes panteões?
Também não existe uma regra universal dizendo que uma bruxa precisa escolher um panteão específico.
Na Wicca, por exemplo, encontramos relações com divindades provenientes de diferentes tradições pré-cristãs, especialmente tradições europeias e também greco-romanas e egípcias como comentado antes.
Isso possui um contexto histórico dentro do desenvolvimento da religião moderna.
Mas isso não significa:
“Toda bruxa pode simplesmente pegar qualquer divindade de qualquer religião e colocar no altar.”
Estudar uma divindade exige conhecer sua origem, sua cultura, sua história e o contexto religioso em que foi cultuada, incorporada à tradição daquela religião.
Isso é muito diferente de simplesmente escolher uma figura porque sua estética ou seus atributos combinam com aquilo que você deseja trabalhar.
E se eu não quiser cultuar divindades?
Tudo bem.
Você pode ter uma prática baseada na natureza.
Pode trabalhar com os elementos.
Pode estudar magia.
Pode fazer encantamentos.
Pode trabalhar com ervas e ciclos naturais.
Pode praticar Bruxaria Natural.
Não é necessário preencher sua prática com divindades para que ela tenha significado.
A ausência de culto também pode ser uma escolha consciente.
O problema não é a mistura. É não saber que está misturando
Uma prática pessoal pode ser eclética, dentro da bruxaria existe uma corrente chamada bruxaria eclética, problema surge quando a pessoa mistura elementos de diferentes tradições e depois apresenta essa combinação como se fosse uma prática tradicional.
Por exemplo:
“Eu criei uma prática pessoal que combina Bruxaria Natural, estudos de uma religião afro-brasileira e elementos de ocultismo.”
Isso é uma descrição honesta da prática individual.
Outra coisa seria afirmar:
“Na Bruxaria Natural, essas entidades são cultuadas.”
Aí precisamos de evidências históricas para sustentar a afirmação. E a Bruxaria Natural, ela começa a partir do livro de Scott Cunningham, que era wiccano e teve o objetivo de lançar esse livro para popularizar a prática da magia natural e o culto à natureza sem divindades e sem ter uma religião estabelecida.
Uma coisa é praticar. Outra é atribuir origem.
Afinal, bruxaria envolve culto a entidades?
Algumas formas religiosas de bruxaria envolvem culto ou devoção à divindades.
A Bruxaria Natural pode ser praticada sem culto a divindades.
Uma pessoa pode ser bruxa e não cultuar ninguém.
Uma pessoa pode ser bruxa e cultuar divindades.
Uma pessoa pode ser bruxa e também ter uma prática mediúnica pessoal.
O que não devemos fazer é transformar uma experiência individual ou uma prática de outra religião em uma característica universal da bruxaria.
Conclusão
A palavra bruxaria abrange caminhos diferentes.
Existem práticas mágicas.
Existem caminhos espirituais.
Existem tradições religiosas.
Existem formas de bruxaria que trabalham com divindades.
Existem formas que não trabalham com divindades.
E existem praticantes que constroem uma prática pessoal.
Tudo isso pode existir.
O que precisamos preservar é a distinção entre magia, bruxaria, religião, devoção, mediunidade, elementos de outras religiões e prática pessoal.
A Umbanda possui suas próprias entidades e sua própria cosmologia.
A Wicca possui sua própria estrutura religiosa.
A Bruxaria Natural possui sua própria proposta mágica e filosófica.
E a prática pessoal de um indivíduo pertence, antes de tudo, àquele indivíduo.
Você pode escolher seus caminhos. Mas conhecer a origem deles é o que permite escolhê-los conscientemente.
E talvez essa seja a verdadeira liberdade espiritual:
não precisar transformar tudo em uma única coisa para poder praticar aquilo que faz sentido para você.
Fontes e referências:
História da Wicca e da bruxaria moderna
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford University Press, 1999.
DOYLE WHITE, Ethan. Wicca: History, Belief, and Community in Modern Pagan Witchcraft. Cambridge University Press, 2022.
BUCKLAND, Raymond. Buckland’s Complete Book of Witchcraft. Llewellyn.
Hécate e religião grega antiga
HESÍODO. Teogonia, vv. 404–452.
Hino Homérico a Deméter.
PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia.
SMITH, William (ed.). A Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. Verbete “Hecate”.
Theoi Project. Hekate — Greek Goddess of Witchcraft, Magic & Ghosts.
Bruxaria Natural e magia natural
CUNNINGHAM, Scott. Earth, Air, Fire & Water: More Techniques of Natural Magic. Llewellyn.
CUNNINGHAM, Scott. The Complete Book of Incense, Oils & Brews. Llewellyn.
