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Sumário:
- Antes de “witchcraft”: a magia como conceito mais amplo
- Wicca e Wicce: a origem linguística de “witch”
- Witch: a pessoa antes da “bruxa moderna”
- Witchcraft: o “ofício” da witch
- Quando a palavra encontra a demonologia
- Witchcraft como categoria jurídica
- O declínio jurídico da bruxaria
- A palavra sobrevive ao desaparecimento da perseguição
- Século XX: a grande ressignificação
- Wicca: quando Witchcraft ganha arquitetura religiosa
- Depois da Wicca: quando Bruxaria se torna um campo plural
- O problema contemporâneo: quando “witchcraft” vira um guarda-chuva
- Magia não precisa ser chamada de Bruxaria
- De acusação a identidade
- Conclusão: uma palavra, muitas camadas
Introdução: quando uma palavra atravessa séculos
Poucas palavras carregam tantas camadas históricas quanto “bruxaria”.
No português contemporâneo, “bruxaria” pode evocar uma prática mágica, uma tradição espiritual, uma religião, uma identidade, uma figura folclórica ou simplesmente um conjunto de práticas associadas ao imaginário das bruxas.
No inglês, o fenômeno é ainda mais evidente em torno das palavras witch, witchcraft e Wicca.
Esses termos possuem relações históricas e linguísticas, mas não são sinônimos absolutos nem representam uma continuidade religiosa linear.
A palavra witch possui raízes no inglês antigo, enquanto witchcraft se desenvolve posteriormente como uma formação relacionada à witch. Séculos depois, no século XX, o termo Wicca é recuperado e associado a uma religião neopagã moderna.
O problema surge quando essas diferentes camadas são apagadas e uma definição contemporânea é projetada retroativamente sobre toda a história.
Dizer simplesmente que “witchcraft é magia” ou que “witchcraft é uma religião” pode ser correto em determinados contextos modernos, mas nenhuma dessas definições, isoladamente, explica a trajetória histórica do termo.
Este artigo acompanha justamente essa transformação.
1. Antes de “witchcraft”: a magia como conceito mais amplo
A ideia de magia é muito anterior à palavra inglesa witchcraft.
Nas sociedades antigas, diferentes termos eram utilizados para designar encantamentos, adivinhação, rituais, poções, malefícios e outras formas de ação sobrenatural.
No mundo greco-romano, por exemplo, existiam diversas categorias para pessoas e práticas mágicas, e essas categorias não correspondiam necessariamente à distinção moderna entre “bruxa”, “feiticeira”, “mago” e “feiticeiro”.
A própria palavra inglesa magic possui uma história antiga, derivada do latim magia e, antes dele, do grego mageia.
Portanto, a existência de práticas mágicas não depende da existência da palavra witchcraft.
Esse ponto é fundamental:
magia é um campo conceitual muito mais antigo do que “witchcraft”.
A palavra “bruxaria” não precisou existir para que seres humanos praticassem magia.
2. Wicca e Wicce: a origem linguística de “witch”
No inglês antigo, encontramos as formas wicca e wicce, utilizadas para pessoas associadas a práticas mágicas ou sobrenaturais.
A wicce era a forma feminina e wicca, a masculina.
Essas palavras não designavam uma religião chamada Wicca.
Também não devem ser interpretadas automaticamente como equivalentes exatos da moderna “bruxa”.
Elas pertenciam a um vocabulário próprio de uma sociedade anglo-saxônica cristianizada, na qual práticas mágicas, adivinhação e outras formas de ação sobrenatural eram classificadas segundo categorias diferentes.
Ao longo da evolução do inglês, essas formas passaram por transformações linguísticas até chegar à palavra witch.
Assim, existe uma relação etimológica entre:
wicca / wicce → witch
Mas essa continuidade linguística não significa continuidade religiosa.
Uma palavra pode sobreviver durante séculos enquanto seu significado social muda profundamente.
3. Witch: a pessoa antes da “bruxa moderna”
Esse ponto é frequentemente perdido nas interpretações contemporâneas.
A witch não nasceu como a mulher moderna que se identifica como bruxa, nem como uma sacerdotisa de uma religião chamada Witchcraft.
Historicamente, o termo estava relacionado a uma pessoa associada a determinadas formas de magia ou poder sobrenatural.
Dependendo do período e do contexto, práticas atribuídas a essas pessoas poderiam envolver encantamentos, adivinhação, cura, proteção ou malefícios.
Isso não significa que “witch” e “sorcerer” fossem simplesmente sinônimos.
As palavras possuíam histórias diferentes e pertenciam a tradições linguísticas distintas.
Entretanto, suas áreas de significado podiam se sobrepor.
Uma tradução moderna de wicce pode utilizar palavras como “bruxa”, “feiticeira”, “maga” ou “praticante de magia”, dependendo do contexto.
A divisão rígida que hoje algumas pessoas fazem entre “bruxa” e “feiticeira” não pode ser simplesmente projetada sobre todos os períodos históricos.
4. Witchcraft: o “ofício” da witch
É nesse contexto que aparece witchcraft.
A formação da palavra é transparente:
witch + craft
Craft carrega a ideia de habilidade, arte ou ofício.
Assim, witchcraft pode ser compreendido originalmente como o ofício, arte ou prática atribuída à witch.
Isso estabelece uma diferença conceitual interessante:
magic → o campo mais amplo das práticas mágicas
witch → a pessoa categorizada como witch
witchcraft → o ofício ou prática atribuída à witch
Isso não significa que essas categorias fossem perfeitamente separadas na prática.
O vocabulário histórico era fluido, e diferentes termos poderiam ser usados para práticas semelhantes.
Mas a própria formação de witchcraft mostra que a palavra não nasceu simplesmente como sinônimo abstrato de “magia”.
Ela está linguisticamente ligada à figura da witch.
5. Quando a palavra encontra a demonologia
A história muda profundamente durante a Baixa Idade Média e a Primeira Modernidade.
Determinadas práticas mágicas passam progressivamente a ser enquadradas por modelos teológicos e jurídicos que as relacionavam ao pecado, ao malefício e, em determinados contextos, à atuação demoníaca.
A partir dos séculos XV e XVI, a demonologia europeia produz uma concepção cada vez mais sistemática da bruxaria.
O Malleus Maleficarum, publicado em 1487, tornou-se uma das obras mais conhecidas dessa tradição. O tratado articula magia nociva, pacto demoníaco, relações com espíritos malignos e questões jurídicas relacionadas à perseguição das supostas bruxas.
Isso é importante porque o significado social de witchcraft começa a carregar uma camada que não estava contida simplesmente na ideia de “prática mágica”.
Agora, a categoria podia envolver:
- malefício;
- heresia;
- pacto demoníaco;
- transgressão moral;
- ameaça social;
- crime.
A palavra permanece, mas seu campo semântico se transforma.
6. Witchcraft como categoria jurídica
Durante a grande onda de perseguições europeias, entre aproximadamente os séculos XV e XVIII, a bruxaria deixa de ser apenas uma questão de crença ou narrativa popular e passa também a funcionar como categoria jurídica.
Na Inglaterra, acusações de witchcraft foram julgadas por autoridades civis e tribunais locais.
A palavra passa a existir dentro de leis, acusações, interrogatórios e julgamentos.
Nesse contexto, witchcraft não significava simplesmente:
“uma pessoa que pratica magia”.
Passava a significar uma categoria construída pela combinação de determinados elementos: magia nociva, suspeita, testemunhos, crenças religiosas, legislação e interpretações demonológicas.
O termo, portanto, adquiriu uma dimensão institucional.
Essa transformação é essencial para compreender por que a palavra “bruxaria” carrega, historicamente, muito mais do que a ideia de uma técnica mágica.
7. O declínio jurídico da bruxaria
Na Inglaterra, a transformação continuou.
O Witchcraft Act de 1735 abandonou a ideia de que a própria bruxaria deveria ser tratada como um crime baseado na existência real de poderes sobrenaturais. Em seu lugar, passou a punir pessoas que fraudulentamente alegassem possuir determinados poderes.
Isso representa uma mudança epistemológica importante: o problema deixa gradualmente de ser “a bruxa realmente possui poderes?” e passa a ser “essa pessoa está enganando outras pessoas?”
O último julgamento inglês por bruxaria ocorreu em 1717, enquanto a legislação de 1735 marcou o fim da criminalização da bruxaria como tal. A Witchcraft Act de 1735 só seria formalmente revogada em 1951.
Portanto, é importante fazer uma distinção:
1735 → fim da bruxaria como crime específico na legislação inglesa
1951 → revogação formal da Witchcraft Act de 1735
Essa diferença é frequentemente perdida quando se conta essa história de forma simplificada.
8. A palavra sobrevive ao desaparecimento da perseguição
A perseguição diminui, mas a palavra não desaparece.
A figura da witch continua presente no folclore, na literatura, nas histórias populares e posteriormente na cultura ocultista.
A “bruxa” deixa gradualmente de ser apenas uma ameaça jurídica e passa a ocupar outros espaços simbólicos.
Ela pode aparecer como:
- velha perigosa;
- curandeira;
- mulher sábia;
- feiticeira;
- personagem folclórica;
- figura sobrenatural;
- símbolo de transgressão.
A mesma palavra continua existindo, mas seu significado já não é determinado exclusivamente pelo tribunal.
A bruxa passa a sobreviver também como personagem cultural.
9. Século XX: a grande ressignificação
É no século XX que ocorre uma transformação decisiva.
Gerald Gardner apresenta uma forma moderna e estruturada de Witchcraft, especialmente através de Witchcraft Today, publicado em 1954.
Nesse contexto, a figura da witch deixa de ser apenas uma categoria atribuída a alguém por terceiros e passa a poder ser assumida como identidade religiosa e espiritual.
Essa é uma mudança conceitual enorme.
Antes:
“Ela é uma witch.”
podia funcionar como acusação.
Agora:
“Eu sou uma witch.”
pode funcionar como identidade assumida.
O que antes era associado ao desvio passa a ser reivindicado positivamente.
A Bruxaria passa do campo da acusação para o campo da identidade.
10. Wicca: quando Witchcraft ganha arquitetura religiosa
A Wicca moderna não deve ser apresentada como uma religião antiga que simplesmente sobreviveu escondida durante séculos.
Ela é uma religião moderna que reorganiza e ressignifica elementos provenientes de diferentes fontes, incluindo ocultismo moderno, folclore, simbolismo europeu e reconstruções imaginativas do passado.
Gerald Gardner teve papel central nesse processo, e Doreen Valiente contribuiu profundamente para o desenvolvimento da linguagem ritual e litúrgica da tradição.
O resultado foi uma estrutura religiosa que inclui:
- cosmologia;
- rituais;
- calendário;
- ética;
- identidade religiosa;
- práticas mágicas;
- relação com divindades e natureza.
A palavra Wicca, portanto, passa a designar uma realidade que não existia quando wicca/wicce eram utilizados no inglês antigo.
Existe continuidade linguística.
Não existe, porém, uma continuidade religiosa simples.
Wicca é uma ressignificação moderna de um vocabulário antigo.
11. Depois da Wicca: quando Bruxaria se torna um campo plural
A partir da segunda metade do século XX, o termo “Witchcraft” começa a ser reivindicado por diferentes grupos e indivíduos.
Alguns permanecem próximos da Wicca.
Outros procuram estabelecer caminhos próprios.
Surgem ou se consolidam expressões como:
- Traditional Witchcraft;
- folk witchcraft;
- eclectic witchcraft;
- natural witchcraft;
- solitary witchcraft;
- formas seculares de witchcraft.
Essas correntes não possuem necessariamente a mesma origem, estrutura ou cosmologia.
Algumas dialogam diretamente com a Wicca; outras procuram justamente se diferenciar dela.
O resultado é uma expansão do campo semântico de witchcraft.
A palavra deixa de apontar para uma única estrutura religiosa.
12. O problema contemporâneo: quando “witchcraft” vira um guarda-chuva
É nesse ponto que surge uma das maiores confusões atuais.
No inglês contemporâneo, especialmente no ambiente digital, witchcraft pode significar coisas muito diferentes.
Pode designar:
uma religião
um caminho espiritual
uma tradição
uma prática mágica
uma identidade
um conjunto de técnicas
uma estética ou linguagem cultural
Essa multiplicidade não é necessariamente um problema.
O problema surge quando um desses significados é apresentado como se fosse o significado histórico único da palavra.
Dizer:
“Witchcraft é apenas uma prática.”
é uma definição possível para determinados usos contemporâneos.
Mas ela não explica a trajetória histórica do termo.
Da mesma forma, dizer:
“Witchcraft é uma religião.”
também seria insuficiente.
A palavra passou por diferentes regimes de significado.
13. Magia não precisa ser chamada de Bruxaria
Existe ainda uma distinção conceitual importante.
Magia já possui uma palavra própria.
Feitiços, encantamentos, poções, rituais, técnicas de proteção, adivinhação e outras formas de ação mágica podem ser descritos dentro do campo da magia.
Portanto, não é necessário redefinir toda prática mágica como “Bruxaria”.
Uma pessoa pode praticar magia sem se identificar como bruxa.
Da mesma maneira, uma pessoa pode identificar-se como bruxa e compreender sua Bruxaria como algo muito maior do que um conjunto de técnicas mágicas.
Nesse sentido:
Magia pode ser uma prática.
Enquanto:
Bruxaria pode constituir um caminho espiritual ou religioso no qual práticas mágicas estão inseridas.
Essa distinção não elimina os usos contemporâneos mais amplos de witchcraft. Ela apenas impede que um significado específico seja projetado sobre toda a história da palavra.
14. De acusação a identidade
Talvez a transformação mais significativa esteja justamente aqui.
A palavra atravessou uma inversão de perspectiva.
Durante determinados períodos históricos:
witch → pessoa acusada
witchcraft → prática atribuída à pessoa acusada
Na Bruxaria moderna:
witch → identidade assumida
witchcraft → tradição, caminho ou prática reivindicada
A palavra permaneceu.
O sujeito mudou.
O contexto mudou.
O poder de nomear mudou.
E isso altera profundamente o significado.
Conclusão: uma palavra, muitas camadas
A história de witchcraft não é uma história de significado único.
Ela acompanha uma longa transformação:
magia
↓
wicca / wicce
↓
witch
↓
witchcraft
↓
magia associada à witch
↓
malefício e demonologia
↓
acusação e categoria jurídica
↓
folclore
↓
ressignificação moderna
↓
Witchcraft como identidade espiritual e religiosa
↓
Wicca
↓
pluralização com correntes de bruxaria
Por isso, afirmar que “Bruxaria é apenas prática ou magia” reduz uma história de séculos a apenas uma de suas camadas.
E afirmar que “Bruxaria é necessariamente Wicca” produz o erro inverso.
A história mostra algo mais interessante:
a palavra sobreviveu porque foi capaz de mudar de significado.
A witch medieval não é simplesmente a Wicca moderna.
A Wicca moderna não é simplesmente a witchcraft medieval.
E witchcraft, no presente, não possui um único significado universal.
O que existe é uma palavra, e uma ideia, que atravessaram diferentes épocas, sistemas jurídicos, cosmologias e movimentos religiosos, sendo continuamente reinterpretadas.
Talvez seja justamente essa capacidade de transformação que explique por que a palavra “bruxa” continua tão viva.
Uma percepção muda e a clareza surge. Música Instrumental da Semana: Lua Negra + Prática de imersão na descrição. Disponível no Youtube!
Leia também: A Jornada da Bruxa: Como Encontrar Seu Caminho?
Referências principais:
- GARDNER, Gerald. Witchcraft Today. London: Rider, 1954.
- GINZBURG, Carlo. The Night Battles: Witchcraft and Agrarian Cults in the Sixteenth and Seventeenth Centuries. Routledge.
- HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford: Oxford University Press, 1999.
- KORS, Alan Charles; PETERS, Edward (eds.). Witchcraft in Europe, 400–1700: A Documentary History. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2001.
- LEVACK, Brian P. The Witch-Hunt in Early Modern Europe. Longman.
- THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic.
- WHITE, Ethan Doyle. Wicca: History, Belief and Community in Modern Pagan Witchcraft. Sussex Academic Press, 2016.
