Introdução
Um estudo sobre bruxas e feiticeiras é uma jornada fascinante que atravessa a história, a antropologia e a linguística. Longe de ser um conceito único, a figura da bruxa se transformou radicalmente ao longo do tempo, assumindo diferentes papéis e significados em diversas culturas, até chegar na modernidade.
Devido a tamanha confusão sobre o que é bruxa, feiticeira, trato aqui sobre algumas diferenciações, significados e semânticas para fins de conhecimento e esclarecimento.
O papel da mulher na antiguidade e a confusão de termos
No período neolítico, época dos caçadores e tribos, as mulheres tinham um papel de liderança e centralidade na comunidade. Como detentoras do conhecimento sobre plantas, medicina e ciclos da natureza, elas eram as curandeiras e sacerdotisas que guiavam as tribos. Sua conexão com a fertilidade, tanto da terra quanto da linhagem humana, era reverenciada, e elas eram vistas como mediadoras entre o mundo material e o espiritual. Nesse contexto, a palavra mais adequada para descrevê-las é sacerdotisa, pois reflete seu papel sagrado e socialmente aceito.
Por que “Xamã” é a escolha mais precisa do que bruxa?
Contexto espiritual e religioso: Essas mulheres tinham uma profunda ligação com o espiritual e atuavam em rituais e previsões. O termo sacerdotisa se refere exatamente a uma mulher com autoridade religiosa e que atua como mediadora entre o mundo terreno e o divino.
Função de liderança: Elas eram as anciãs que obtinham uma profunda ligação com o espiritual e orientavam a tribo. A figura da sacerdotisa carrega a ideia de liderança e de um papel central na comunidade.
O sepultamento que atravessou nove milênios e revelou uma especialista do sagrado
O artigo apresenta os avanços recentes no estudo de um dos sepultamentos mais fascinantes da pré-história europeia: o túmulo de uma mulher mesolítica enterrada há cerca de 9.000 anos em Bad Dürrenberg, na Alemanha, tradicionalmente identificada como uma xamã. Descoberto originalmente em 1934, o sepultamento só pôde ser analisado com maior profundidade a partir de novas escavações iniciadas em 2019, quando técnicas arqueológicas modernas permitiram revisitar áreas antes pouco exploradas. Os restos pertencem a uma mulher entre 30 e 40 anos, enterrada ao lado de um bebê de aproximadamente seis meses, acompanhada por artefatos simbólicos como uma tiara de chifre e pingentes feitos de dentes de animais, indicando um papel ritual de grande relevância dentro de sua comunidade.
Penas, pigmentos e símbolos: a confirmação material de um papel xamânico
As pesquisas recentes confirmaram que detalhes cruciais haviam sido ignorados nas escavações iniciais. Em camadas do túmulo que permaneceram intactas, os arqueólogos encontraram pigmentos de óxido de ferro vermelho, objetos não catalogados e materiais extremamente frágeis, raramente preservados em sepultamentos desse período. A descoberta mais impactante foi a identificação de fragmentos microscópicos de penas, especificamente de ganso, localizados ao redor da cabeça da mulher. Essas estruturas minúsculas, chamadas barbúleas, forneceram a primeira prova material de que a tiara cerimonial provavelmente era ricamente ornamentada com penas, confirmando hipóteses anteriores baseadas em comparações etnográficas e reconstruções artísticas.
Um túmulo que virou altar: o legado ritual que sobreviveu por séculos
O estudo revelou ainda que o local manteve sua importância ritual muito tempo após a morte da xamã. Cerca de 600 anos depois, um novo buraco foi escavado em frente ao sepultamento original, onde foram depositadas duas máscaras feitas de chifres de cervo, acompanhadas por vestígios de penas de aves cantoras, perdizes e fibras vegetais. Esses elementos sugerem trajes cerimoniais elaborados e indicam que o túmulo continuou sendo um ponto de culto e memória ritual por gerações. Hoje, o sepultamento de Bad Dürrenberg é considerado possivelmente o mais estudado do Mesolítico na Europa Central, e seus achados serão apresentados na exposição “A Xamã”, prevista para 2026, que pretende lançar nova luz sobre as origens das práticas rituais e o mundo simbólico dessa mulher cuja influência atravessou séculos.
Bibliografia:
The Woman in the Shaman’s Body — Barbara Tedlock (2005)
Women as Healers: Cross-Cultural Perspectives — Carol Shepherd McClain (Org., 1989)
Woman, Culture, and Society — Michelle Zimbalist Rosaldo & Louise Lamphere (1974)
O papel das mulheres que cultuavam divindades nas civilizações antigas
Nas sociedades pré-históricas e nas civilizações da Antiguidade Clássica, como Grécia e Roma, o termo mais adequado para descrever as mulheres que cultuavam divindades pagãs e praticavam rituais é sacerdotisa e não bruxas. Elas não eram figuras marginalizadas, mas sim líderes religiosas e detentoras de um poder espiritual e social legítimo. Porém, há de se considerar que “..no campo histórico-antropológico, “bruxaria” era usado como sinônimo de todas as práticas de feitiçaria ao longo da história, funcionando como sinônimo de magia, feitiçaria e animismo” Fonte: A História da Bruxaria – Tradição Caminhos das Sombras
Sacerdotisas na Grécia e em Roma: Essas mulheres serviam em templos, dedicados a divindades como Hécate (deusa da encruzilhada e da magia), Diana (deusa da caça e da lua) e Vesta (deusa do lar e do fogo sagrado). Elas realizavam rituais, faziam previsões e atuavam como mediadoras entre os mortais e os deuses. Algumas, como as do Oráculo de Delfos, eram consultadas por reis e líderes.
A prática da Magia: Muitas dessas sacerdotisas também praticavam a feitiçaria, que na época era vista como uma habilidade, não como um crime. Elas manipulavam ervas, faziam poções e encantamentos para cura, proteção ou amor.
A bruxa na Idade Média e as perseguições históricas
A visão da mulher do campo que cultuava deuses pagãos na antiga Europa mudou drasticamente durante a Renascença e a Reforma, é a partir daí que as bruxas como conhecemos hoje vão começar seu caminho. A Igreja, em ascensão e buscando consolidar seu poder, começou a estigmatizar as práticas de feitiçaria e as tradições pagãs. O que antes era considerado sabedoria ancestral passou a ser visto como uma ameaça. A figura da mulher que tinha conhecimentos de ervas, feitiços, unguento, oráculos, que cultuava a natureza com celebrações nas estações, que antes representava a conexão com a natureza e o divino, foi demonizada e associada ao diabo e à heresia. E não só as praticantes de magia e feitiçaria mas também as que gostavam de ler, o tinham conhecimentos mais aprofundados como astrólogas, cientistas, astrônomas e mais.
É nesse período que os termos se distorcem, pois tudo que se remete a cultuar a natureza, magia e derivados era considerado crime, culto ao diabo. E escolherem uma palavra: bruxas/bruxaria como forma de acusação. Mais à frente o sentido etimológico.
Curiosamente, a “caça às bruxas” não foi um fenômeno exclusivo da Idade Média, mas sim um evento que atingiu seu auge nos séculos XVI e XVII, com perseguições em lugares como Salem, nos Estados Unidos, e até no Brasil colonial, embora em menor escala.
Compreendendo as Origens da Bruxaria
Ao longo dos séculos, inúmeras denominações foram empregadas para descrever aqueles que mantinham conexão com o plano espiritual e dominavam a arte dos encantamentos: Bruxaria, Feitiçaria, Magia, Arte Antiga, Caminho Oculto, entre tantos outros nomes que atravessaram culturas e idiomas. Esses títulos, ora carregados de preconceito, ora de reverência, buscavam identificar indivíduos que transitavam entre o visível e o invisível, manipulando energias para alcançar os mais distintos objetivos.
Entender minimamente a trajetória histórica desse caminho espiritual torna-se fundamental por diversas razões. Primeiro, para evitarmos perpetuar narrativas discriminatórias e historicamente imprecisas. Segundo, para não seguirmos cegamente uma tradição sem compreender suas raízes e transformações ao longo do tempo. Terceiro, para nos afastarmos da postura inquisitorial de quem acredita possuir a única verdade sobre o que constitui a bruxaria genuína.
Nossa busca vai além: almejamos reconhecer e valorizar as múltiplas manifestações da bruxaria que emergiram em diferentes períodos e contextos da jornada humana. O saber, para nós, possui caráter sagrado, motivando-nos a expandir constantemente nossa compreensão sobre os elementos que fundamentam nossa espiritualidade e prática mágica. Este panorama visa demonstrar como a evolução conceitual e histórica da bruxaria influencia diretamente nossa vivência contemporânea como praticantes wiccanos e bruxos modernos, evidenciando a importância desse debate logo nos primeiros passos da aprendizagem.
Raízes Linguísticas do Termo
A maioria dos etimologistas modernos concorda que “bruxa” vem de um substrato pré-latino da Península Ibérica, possivelmente de uma língua celta ou mesmo basca antiga. Sendo a hipótese mais respeitada. A palavra não tem equivalente direto no latim clássico, o que indica que já existia entre povos locais antes da romanização. Uma raiz provável é o termo protocelta “brixta”.
No idioma português, os termos “bruxaria” e “bruxa” apresentam natureza abrangente. Suas origens remontam à Era Antiga (aproximadamente século III antes da Era Comum) na região da Península Ibérica, território que hoje abriga Portugal e Espanha. Linguisticamente, essas palavras possuem raízes pré-latinas, significando que não derivam do latim.
Durante o período medieval (séculos VI a XV da Era Comum), o conceito de bruxaria passou a englobar especificamente as práticas mágicas realizadas por pessoas supostamente vinculadas ao demônio cristão, que empregavam encantamentos para perturbar a ordem natural estabelecida pela divindade.
Perspectivas Interpretativas
O historiador norte-americano Jeffrey Burton Russell identifica três abordagens principais para compreender a bruxaria e o papel da bruxa:
A perspectiva antropológica equipara bruxaria à feitiçaria de modo geral, tratando-as como sinônimos dentro do contexto das práticas mágicas universais.
A perspectiva histórica fundamenta-se em documentação escrita para caracterizar qualquer manifestação de bruxaria como atividade associada à adoração diabólica, refletindo principalmente a visão construída durante o período de perseguições.
A perspectiva contemporânea apresenta a bruxaria como expressão religiosa pagã ou neopagã, interpretação frequentemente defendida por praticantes wiccanos e bruxos modernos que reivindicam continuidade ou reconstrução de tradições ancestrais.
O que não é ser uma bruxa? Baseado no Livro História da Bruxaria
Confusões conceituais:
- Bruxaria não é sinônimo de ocultismo (muitos bruxos rejeitam essa associação)
- Não se limita a pessoas com poderes psíquicos
- Não é equivalente ao vodu (que, na verdade, busca proteção contra bruxaria)
- Curandeiros combatem bruxaria malévola, não a praticam
Mitos históricos desmentidos:
- Bruxaria não é universal e idêntica em todas as culturas
- A missa negra não faz parte da tradição bruxa (pertence ao satanismo)
- Grandes perseguições ocorreram na Renascença e Reforma, não na Idade Média
- Praticantes não eram exclusivamente mulheres velhas (incluía homens, jovens e até crianças)
- A Inquisição não foi a única responsável pelas perseguições (autoridades civis locais também participaram ativamente)
O texto enfatiza a necessidade de diferenciar bruxaria moderna (Wicca) de outras práticas esotéricas e de compreender as variações culturais e históricas do fenômeno.
A Etimologia da Palavra “Bruxa” e Termos Relacionados
Raízes linguísticas:
- Como descrito antes, “bruxa” vem de um substrato pré-latino da Península Ibérica, sem raíz direta do latim.
- Deriva do inglês antigo: wicca (bruxo, masculino) e wicce (bruxa, feminino)
- Ambos provêm do verbo wiccian (“lançar um feitiço” ou “fazer um encantamento”)
- Mito desmentido: Não tem origem celta nem relação com witan (“saber”)
- A explicação de que witchcraft significa “arte dos sábios” é completamente falsa
Evolução histórica:
- Século IX: wicca significava “feiticeiro”
- Durante as perseguições: tornou-se sinônimo de maleficus (latim), designando adoradores do diabo
- O termo passou a englobar camponeses e praticantes de paganismo de modo geral
Outros Termos e Suas Distinções
Wizard (Feiticeiro/Mago):
- Séculos XVI-XVII: designava um “alto mago” por ser mais litúrgico e também elitizado.
- Somente após 1825 foi usado raramente como sinônimo de “bruxo”
Sorcerer (Feiticeiro):
- Do francês sorcier, do latim vulgar sortiarius (“adivinho”)
- Introduzido no inglês nos séculos XIV-XV
- Termo ambivalente: refere-se tanto à feitiçaria simples quanto à bruxaria diabólica
Magician (Mago):
- Do latim magia, do grego mageia
- Magos originalmente designava sacerdotes-astrólogos iranianos
- “Alta magia”: sistema intelectual sofisticado e elitizado, distinto das práticas “rudes” da feitiçaria
- Tradição separada da bruxaria, raramente acusados simultaneamente durante as perseguições
Distinções Importantes
- Magia vs. Bruxaria: São tradições distintas e historicamente separadas, embora a bruxaria compartilhe a visão mágica de mundo (relacionamentos ocultos entre elementos do cosmos).
- Perspectiva antropológica: Alguns antropólogos não distinguem feitiçaria de bruxaria. O historiador medieval Russel já pontua que na perpsectiva antropológica, a bruxaria é vista como sinônimo de magia simpática que são práticas mágicas tradicionais, como curandeirismo e xamanismo praticadas por pagãos em tribos.
- Foco das perseguições: Concentrou-se em reduzir todos os termos pagãos ao conceito unificado de “bruxaria diabólica”.
Qual é a diferença entre bruxa e feiticeira hoje?
Sim, tem diferença, e quem afirma isso é o Dr. Odir Fontoura, “o prof. Dr. Odir Fontoura traz uma aula sobre como as feiticeiras e, mais tarde, as bruxas (porque sim, são coisas diferentes!) foram retratadas na pintura ao longo dos séculos. Os mitos de Circe e Medeia na Antiguidade, as feiticeiras de Waterhouse e as bruxas de Salvator Rosa nos trazem importantes reflexões sobre como o corpo da mulher foi entendido na história da arte ao longo do tempo. Das histórias bíblicas aos encontros dos sabás do mundo moderno, as feiticeiras e bruxas ainda nos fascinam.” Acesse o curso dele aqui.
Bruxa:
- Origem: ligada a cultos, divindades, ciclos da natureza.
- Essência: a bruxa não apenas faz magia, ela vive uma cosmovisão: rituais, culto a deuses, ancestralidade, conexão com a Terra. Outras características: poderes psíquicos, conhecimento de ervas, encantamentos, oráculos, talismãs, manipula elementos e energias da natureza.
- Exemplo histórico: as mulheres associadas a Hécate ou Diana, as “feiticeiras noturnas” que voavam em bandos → mas em essência eram devotas, camponesas do interior pagãs que preservavam cultos antigos na Idade Média, são as mulheres acusadas na caça ás bruxas. Esse conceito foi ressignificado pela Religião Neo-pagã Wicca, na Inglaterra, em 1950.
- Imagem arquetípica: as bruxas da caça às bruxas, as bruxas do Harry Potter, bruxas que voam, bruxas com caldeirão, bruxas do cinema em geral que contribui para o imaginário popular.
Feiticeira:
- Origem: do latim facticius (feito, fabricado).
- Essência: a feiticeira manipula técnicas e fórmulas mágicas — encantamentos, venenos, filtros de amor, talismãs, pode possuir poderes psíquicos e conhecimento de oráculos.
- Diferença-chave: não precisa cultuar deuses ou viver dentro de uma tradição espiritual. Pode praticar de forma mais pragmática.
- Exemplo histórico: Circe (na Odisseia) transforma homens em porcos → não porque cultua, mas porque domina a arte mágica.
- Imagem arquetípica: magia prática, manipula energias, conhecedora de receitas e segredos ocultos.
Em resumo:
- Bruxa → figura espiritual/religiosa, ligada a divindades, natureza e culto. Que também pratica feitiçaria.
- Feiticeira → figura técnica, que manipula forças mágicas sem necessariamente ter culto ou devoção. Contata espíritos.
Você pode ver também afirmações como “toda bruxa moderna pode ser feiticeira (porque conhece feitiços), mas nem toda feiticeira é bruxa (porque nem toda feiticeira cultua divindades, focam mais nas fórmulas mágicas e na comunicação com espíritos terrenos ou desencarnados).
Mas não se engane, uma não é maior que a outra, não existe essa hierarquia. Cada uma tem seu respectivo lugar.
Como “bruxaria” chega à África
A “bruxaria” como conceito europeu chega à África via colonização:
- Missionários cristãos traduziram witchcraft para se referirem às práticas espirituais africanas que não batiam com a Bíblia.
- A partir daí, a palavra “bruxa” ou “feiticeiro” (com conotação negativa) passa a ser usada para descrever os praticantes tradicionais.
- Mas nas línguas africanas, o termo original é outro: àjé (iorubá), ndoki (banto), mulozi (zulu), etc.
Ou seja: o Candomblé não tem “bruxas” no sentido europeu. Ele tem Iyami, mães ancestrais do poder, e pessoas que praticam feitiçaria (ebós, encantamentos, trabalhos). A palavra “bruxa” é só uma distorção semântica, tudo que a Igreja Católica queria produzir para extinguir deuses pagãos, como devotos e praticantes de magia ou feitiçaria, reduzindo seu significado a bruxaria/bruxa no sentido diabólico da palavra.
África de hoje e a visão de Bruxaria
Na África contemporânea, a bruxaria é entendida de forma muito diferente da chamada “bruxaria” europeia. Para grande parte da população, ela não é metáfora ou folclore (como vista aqui no Brasil as bruxas, por exemplo, que se define como imaginário popular ou algo que não exista e que está mudando com a visão da Wicca) mas uma força concreta capaz de curar ou destruir, razão pela qual há medo de ser “embruxado” e, ao mesmo tempo, procura-se por proteção ritual junto a feiticeiros, curandeiros e adivinhos. Em países como Angola, Nigéria e Gana, a crença é tão forte que até no futebol existem regras que proíbem o uso de feitiços em campo, refletindo o quanto a magia é percebida como real no cotidiano.
No Brasil: a tradução “bruxa” em Tradições Africanas
Quando missionários católicos e cronistas coloniais chegaram aqui, eles precisavam traduzir práticas africanas e indígenas para categorias que já conheciam. Como na Europa o termo “bruxa” já significava mulher que pratica feitiçaria/arte proibida, o mesmo rótulo foi jogado sobre:
- as Iyami Àjé (mães do poder feminino, nos iorubás), o que pode descrever em tese o motivo de associação com bruxas hoje em dia;
- os feiticeiros e curandeiros africanos;
- até sobre práticas indígenas de xamanismo.
Só que isso é uma traição etimológica: “bruxa” é um termo europeu, que ganhou ressignificação com a Wicca ou Bruxaria Moderna. As Iyami não têm nada disso — são uma outra cosmologia.
Então, sim: aqui no Brasil, há uma substituição reducionista. O que era “mãe do poder feminino” virou “bruxa”. Quando se usa “bruxa” para falar das Iyami ou de práticas africanas, acontece uma tradução que encolhe:
- A Iyami não é só “mulher que faz magia” → é mãe ancestral, poder feminino cósmico, guardiã da fertilidade e da destruição ligada a divindade Olodumare.
- A palavra “bruxa” no português já vem com uma bagagem histórica europeia, e quando aplicada ao contexto africano, perde-se o contexto histórico original. Essa redução é a intenção de marginalizar já com a Igreja Católica.
A bruxa moderna e a ressignificação do termo
Em meados do século XX, em 1950, com a revogação das últimas leis de perseguição à bruxaria na Inglaterra, surge a Wicca, uma religião neopagã que se baseia nas antigas tradições europeias, como o xamanismo celta e germânico. A bruxaria moderna, ou Wicca, não tem relação com o diabo, mas sim com a reverência à natureza, personificada na “Grande Mãe”, e a prática da magia para fins benéficos.
Nesse contexto, a bruxa moderna é vista como alguém que segue um caminho espiritual, honra a natureza e pratica rituais e feitiços. A religião é praticada por wiccanos, que podem atuar de forma solitária ou em grupos (covens), mas sempre mantendo a mesma base filosófica. A bruxaria, hoje, não é mais um tabu, mas uma religião crescente, sendo reconhecida por diversas instituições, inclusive nos Estados Unidos.
É uma religião que busca reconectar as pessoas com a sabedoria ancestral e com o sagrado feminino, subvertendo o estigma que a bruxa carregou por séculos.
Símbolo de poder: A bruxa moderna tornou-se um símbolo de autonomia, resistência e empoderamento feminino. Ela não apenas pratica magia, mas também honra as bruxas que foram queimadas na inquisição, a herança de suas ancestrais, como as sacerdotisas e feiticeiras da antiguidade.
Ela representa o elo perdido entre a magia como uma prática sagrada e aceita socialmente e o estigma imposto pela perseguição histórica. A bruxa moderna resgata a legitimidade de seu papel e seu poder.
E com relação a Bruxaria Natural?
Segundo Claudiney Prieto, que é a principal voz da Wicca no Brasil e é considerado um dos autores mais respeitados e conhecidos da atualidade sobre o assunto, ele comenta em uma participação no canal do ‘Daniel Pires, o Lenda’, que “a Bruxaria Natural são pessoas pagãs que praticam o paganismo, pois elas são o que se nomeia Baixa Magia, são praticas de magia, feitiços, encatamentos e magia popular”, essas pessoas aprendem a fazer seus próprios feitiços como aconteceu nas práticas de Bruxaria(Wicca) ou se baseiam em fórmulas prontas. A Bruxaria natural acaba se apropriando dos termos da Wicca, como Roda do Ano, o Athame, Sabbath, Esbath, Abertura de círculo e outros, o que acaba causando confusão.
Bruxaria natural é a magia natural, quando você utiliza de técnicas, magia simpática com a chuva, vento, tempestade, árvores, elementos, ervas, cristais, fases da lua, magias, feitiços e encantamentos.
Você vai ver pessoas que escolhem adorar divindades ou cultuar a natureza, no entanto, pegam a liturgia e estruturação da Wicca, partes dos livros de autores wiccanianos e falam que não tem religião ou até mesmo criticam, mas na verdade estão adequando como quer, até abrem círculo como a Wicca, uma das principais etapas no início de um ritual.
Você vai ver pessoas celebrando a Roda do Ano, que foi uma recriação baseada em atividades agrícolas celtas e germânicas (povos antigos da Irlanda, Alemanha e outras tribos.) Essa recriação se consolidou historicamente após uma pesquisa feita por Gerald Gardner, criador da Wicca, o considerado pai da Bruxaria Moderna e Patricia Crowther, mãe da Bruxaria Moderna que foi responsável pela organizado do sistema e estruturação da Wicca devido a seus conhecimentos sobre ocultismo, acontencendo por volta dos anos 1950 ou 1960.
As pessoas argumentam sobre ser uma atividade antiga e natural, mas não fazem distinções sobre essa parte da história e aderem a roda do ano e as celebrações mesmo sem ser uma bruxa solitária (Termo da Wicca para quem pratica sem estar em covens).
Então, à quem leu até aqui, fica o desafio de escolher aquilo que lhe é mais devido. Tem pessoas que optam em praticar a Roda do ano mesmo sem ser da Wicca e seguem a vida. As pessoas fazem o que elas quiserem mas considerar os fatores históricos é essencial pois isso evita confrontos e confusões desnecessárias.
As pessoas praticam a Bruxaria Natural sem saber da história e a da origem disso, como chegou até ali, em uma narrativa de que “é só da natureza”, ou que “são as mesmas coisas que as anciãs sábias faziam no neolítico” como se não houvesse uma linha do tempo: Neolítico (mais de 100 mil anos atrás), corta, 2025.
Falo isso pois já pratiquei a Bruxaria Natural, e quando quis fundamentar, saber história e coisas mais embasadas, cheguei na Wicca, e precisei ler sobre a Wicca, história, tradições e tudo, e vi que eu praticava Wicca solitária na verdade. Então, fica a dica, vocês podem estudar as divindades separadamente na cultura e origem da deusa ou deus, algo que Wiccanianos já fazem mas dentro da própria liturgia.
Vocês podem estudar o culto original e aplicar na bruxaria natural(ervas, fases da lua, magias e cristais) para fazer poções e feitiços. Caso escolham cultuar divindades. A verdade é que aqui no Brasil, a Wicca (Bruxaria ou Witchcraft) chega como bruxaria e magia também, não havia diferenciação lá nos anos 2000.
As práticas que se vêem na internet seguidas de abertura de círculo, invocação, ervas correspondentes, fases da lua, Roda do ano, Sabbats, Esbaths, criação de feitiços, os 4 elementos, símbolos como pentagrama/triskele, divindades e panteões e etc., são práticas de uma bruxa(o) solitária (bruxas wiccanianas que não pertencem a covens) que normalmente são práticas já presentes nos livros de Buckland que foi quem deu partida a prática da Wicca solitária para Bruxos solitários e Scott Cuningham que fala sobre isso e magia natural também. Ambos autores eram praticantes wiccanianos, Buckland era iniciado na Wicca e Cunningham era não-iniciado.
A Magia Natural é um conjunto de práticas de magia simpática e correspondências mágicas. Veio de uma iniciativa de Scott Cunningham em seu livro Técnicas de Magia Natural, que é um livro sem ligação com a religião Wicca, e sim com objetivo de se conectar às energias da natureza sem culto à divindades. A Bruxaria Natural na verdade é só mais um nome que acaba muitas vezes confundindo praticantes, mas em suma são técnicas de magia natural para praticantes de magia. Não existe diferença, ao menos, não deveria existir.
Todo mundo se nomeia bruxa!
Hoje todo mundo está se nomeando bruxa, o que acaba com todo o significado da palavra pois virou qualquer coisa. As pessoas se nomeiam assim sem nem sequer entender o por quê, a história e todos os aspectos importantes por trás. Virou filosofia de vida se nomear bruxa, mas toda filosofia tem história e fundamento.
Você vai encontrar hoje em dia pessoas que se consideram bruxas verdes, bruxas naturais, bruxas ecléticas, bruxas quimbandeira e etc. Essas pessoas normalmente estudam e praticam magia (seja magia natural, magia hermética, magia goetia, alquímica) e feitiçaria, não estão vinculadas à alguma religião, ou seja, são pagãos, são adeptos à magia, praticantes de magia. Existem também nesse grupo pessoas que cultuam à natureza, não só praticam magia.
É possível que você encontre também diversas correntes de bruxaria, como bruxaria eclética, até bruxaria luciferiana ou cristã (que pra mim não faz o menor sentido histórico). Nenhuma delas é uma religião, portanto verifique sempre a base e a fundamentação, pergunte sobre a origem dessa corrente espiritual, se nomeiam como tradição quem é o iniciador? E quem foi antes dele? Questionem!
Existe uma confusão enorme de termos hoje em dia, portanto, procurem sempre sobre a origem daquilo que você segue ou pratica. Então, o que é ser bruxa para você? E por que você é uma bruxa?
O que você achou? Comenta aqui se você concorda.
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Bibliografia sugerida
1) Magia, sacerdócio e rituais femininos na Antiguidade
TEDLOCK, Barbara. The Woman in the Shaman’s Body: Reclaiming the Feminine in Religion and Medicine. New York: Bantam, 2005.
— Fundamenta a presença histórica de mulheres como líderes espirituais, curandeiras e mediadoras rituais desde sociedades pré-históricas até civilizações clássicas.BURKERT, Walter. Greek Religion. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985.
— Estudo clássico sobre religiosidade grega com capítulos dedicados a sacerdotisas, oráculos e cultos femininos (incluindo Delfos, cultos lunares e mistérios femininos).PARKER, Robert. Polytheism and Society at Athens. Oxford: Oxford University Press, 2005.
— Mostra a organização religiosa de Atenas e o papel formal, institucional e central das sacerdotisas nos cultos oficiais.2) Sacerdotisas romanas e funções religiosas femininas
BEARD, Mary; NORTH, John; PRICE, Simon. Religions of Rome. Vol. 1: A History. Cambridge: Cambridge University Press, 1998.
— Examina as Vestais, cultos lunares, rituais femininos e o estatuto social da sacerdotisa na religião romana.STAPLES, Ariadne. From Good Goddess to Vestal Virgins: Sex and Category in Roman Religion. London: Routledge, 1998.
— Detalha as funções e o poder simbólico e político das mulheres envolvidas em cultos e rituais sagrados em Roma.3) História da magia e feitiçaria (para transição “sacerdotisa → bruxa”)
GASKILL, Malcolm. Witchcraft: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2010.
— Explica a transformação histórica da magia antiga (neutra ou sagrada) na figura demonizada da “bruxa” europeia.LEVACK, Brian P. The Witch-Hunt in Early Modern Europe. London: Routledge, 2016.
— Principal referência sobre a construção da “bruxa” como categoria criminal, mostrando o auge das perseguições nos séculos XVI e XVII.FEDERICI, Silvia. Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. New York: Autonomedia, 2004.
— Obras clássica sobre a perseguição às mulheres durante a consolidação do poder institucional cristão e o nascimento da modernidade.4) Apagamento histórico dos saberes femininos
MCCLAIN, Carol Shepherd (Org.). Women as Healers: Cross-Cultural Perspectives. New Brunswick: Rutgers University Press, 1989.
— Demonstra como a cura e o conhecimento de ervas eram práticas femininas legitimadas antes de serem associadas à bruxaria.ROSALDO, Michelle Z.; LAMPHERE, Louise (Orgs.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University Press, 1974.
— Fundamenta a tese de que interpretações patriarcais distorceram ou reduziram o papel das mulheres nas sociedades antigas.COROMINAS, Joan; PASCUAL, José A. Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico. Madrid: Gredos, 1980–1991.
— Principal referência etimológica ibérica. Corominas apresenta a hipótese pré-latina para “bruja/bruxa”, associando a raízes protoceltas e possivelmente ao substrato basco, reforçando a ausência de origem latina e a antiguidade peninsular do termo.RUSSELL, Jeffrey Burton. Witchcraft in the Middle Ages. Ithaca: Cornell University Press, 1972.
— Obra clássica na historiografia da bruxaria. Russell define as três principais perspectivas interpretativas (antropológica, histórica e contemporânea) e mostra como, na Idade Média, o termo passou a ser associado ao pacto demoníaco e ao imaginário cristão.HUTTON, Ronald. The Witch: A History of Fear, from Ancient Times to the Present. New Haven: Yale University Press, 2017.
— Estudo abrangente sobre a história do conceito de “bruxa”, incluindo raízes linguísticas europeias, desenvolvimento medieval e releituras modernas neopagãs. Sustenta a ideia de que “bruxaria” evoluiu semanticamente conforme pressões culturais, religiosas e sociais.OXFORD UNIVERSITY PRESS. Oxford English Dictionary. Oxford, 2ª ed., 1989 (e atualizações).
— A fonte mais respeitada para a etimologia inglesa.
Confirma:
• wicca (masc.) e wicce (fem.) no inglês antigo
• derivação do verbo wiccian (“encantar”, “lançar feitiço”)
• ausência de relação com witan (“saber”), refutando o mito da “arte dos sábios”
• evolução semântica medieval e cristã associando witch ao latim maleficusBOSWORTH, Joseph; TOLLER, T. Northcote. An Anglo-Saxon Dictionary. Oxford: Clarendon Press, 1898 (rev. 1973).
— Principal dicionário histórico do inglês antigo.
Confirma:
• significados originais de wicca, wicce e wiccian
• uso de wicca no século IX como “feiticeiro”
• como termos germânicos foram reinterpretados sob o cristianismo
• distinções entre sorcerer, wizard e práticas mágicas de origem não germânicaHUTTON, Ronald. The Witch: A History of Fear, from Ancient Times to the Present. Yale University Press, 2017.
— A obra moderna mais completa sobre a formação do conceito de “bruxa”.
Confirma:
• diferença entre magia, feitiçaria e bruxaria
• distinções históricas entre magician (magia intelectual, sacerdotal), sorcerer (adivinho/feiticeiro) e wizard (termo elitizado dos séc. XVI–XVII)
• como a Igreja unificou vários termos pagãos sob o rótulo “bruxaria diabólica”
• alinhamento com a perspectiva histórica identificada por Russell.RANGER, Terence; VANSINA, Jan (eds.). The Historical Study of African Religion. Berkeley: University of California Press, 1972.
— Obra clássica da historiografia africana.
Confirma:
• como missionários cristãos reinterpretaram práticas espirituais africanas através de categorias europeias, incluindo witchcraft
• o impacto linguístico da colonização na tradução de termos como àjé, ndoki, mulozi
• como cosmologias africanas foram reduzidas e demonizadas no discurso colonialOYĚWÙMÍ, Oyerónké. The Yoruba and the Gender of the “Other”: Iyami and the Moral Cosmos. In: African Studies Review, vol. 44, n. 3, 2001.
— Estudo antropológico fundamental.
Confirma:
• o que realmente significa Iyami Àjé (“mães ancestrais do poder”)
• distinção entre àjé e qualquer noção europeia de “bruxa”
• por que aplicar o termo “witch” ou “bruxa” às Iyami é uma distorção colonizadora
• explica o pano de fundo cosmológico iorubá associado à fertilidade, poder feminino, punição e justiça divinaASHFORTH, Adam. Witchcraft, Violence, and Democracy in South Africa. Chicago: University of Chicago Press, 2005.
— Antropologia contemporânea sobre a visão africana da bruxaria hoje.
Confirma:
• a percepção africana de bruxaria como força real e operante
• medos sociais de embruxamento, busca de proteção, e impacto cultural
• o uso do termo europeu witchcraft como categoria colonial, absorvida e ressignificada em países como Nigéria, Gana, Angola e África do Sul
• a permanência da crença que chega até o futebol (sim, discute cultura cotidiana);Hutton, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford University Press, 1999.
— Obra clássica que demonstra como a Wicca surgiu no século XX, analisando sua formação, mitologias e influências culturais.
Gardner, Gerald B. Witchcraft Today. Rider & Company, 1954.
— Primeiro livro do fundador da Wicca moderna, essencial para compreender a retomada do termo “bruxa” como identidade religiosa positiva.
Adler, Margot. Drawing Down the Moon: Witches, Druids, Goddess-Worshippers, and Other Pagans in America. Penguin Books, 1979.
— Estudo jornalístico abrangente sobre o neopaganismo e o papel da bruxa moderna como símbolo espiritual, político e feminista.

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